as prolongaram-se ao longo de centenas de anos,
mas, no fim, todos os seis reinos do Sul caíram perante
eles. Só aqui, onde o Rei do Norte repeliu todos os exér-
citos que tentaram atravessar o Gargalo, permaneceu a
lei dos Primeiros Homens. Os ândalos incendiaram os
bosques de represeiros, destruíram os rostos a
machadadas, mataram os filhos da floresta onde os
encontraram e proclamaram por todo o lado o triunfo
dos Sete sobre os velhos deuses. Por isso, os filhos
fugiram para o norte...
Verão começou a uivar.
Meistre Luwin interrompeu-se, sobressaltado. Quando
Cão Felpudo se ergueu de um salto e juntou sua voz à do
irmão, o terror apertou o coração de Bran.
- Está para chegar - sussurrou, com a certeza, do
desespero. Compreendeu que o sabia desde a noite
anterior, desde que o corvo o levara até as criptas para
dizer adeus. Sabia, mas não acreditara. Desejava que
Meistre Luwin tivesse razão. O corvo, pensou, o corvo
de três olhos...
Os uivos pararam tão subitamente como tinham
começado. Verão atravessou o chão da torre até junto de
Cão Felpudo e pôs-se a lamber um emaranhado de pelo
ensanguentado no pescoço do irmão. Da janela veio um
ruído de asas.
Um corvo pousou no parapeito de pedra cinzenta, abriu
o bico e soltou um ruído duro e rouco de aflição.
Rickon começou a chorar. As pontas de seta caíram de
sua mão uma por uma e tamborilaram no chão. Bran o
puxou para si e o abraçou.
Meistre Luwin olhou para a ave negra como se fosse um
escorpião com penas. Ergueu-se, lento como um
sonâmbulo, e dirigiu-se à janela. Quando assobiou, o
corvo saltou para cima de seu braço enfaixado. Trazia
sangue seco nas asas.
- Um falcão - murmurou Luwin -, talvez uma coruja.
Pobre animal, é incrível que tenha sobrevivido - tirou-
lhe a carta da perna.
Bran deu por si tremendo enquanto o meistre
desenrolava o papel.
- O que é? - perguntou, apertando o irmão com mais
força ainda.
- Você sabe o que é, rapaz - disse Osha, de uma forma
que não era desprovida de bondade, e pousou-lhe a mão
na cabeça.
Meistre Luwin olhou-os, estupidificado, um homenzinho
cinzento com sangue na manga da veste de lã cinzenta e
lágrimas nos olhos brilhantes e cinzentos.
- Senhores - disse aos rapazes, numa voz que se tinha
tornado rouca e sem força -, nós... teremos de encontrar
um escultor que conheça bem as suas feições...

Sansa

No quarto da torre, no coração da Fortaleza de Maegor,
Sansa entregou-se às trevas. Ar Fechou as cortinas em
volta da cama, dormiu, acordou chorando e voltou a
adormecer. Quando não mais conseguiu dormir, ficou
deitada sob os cobertores, tremendo de desgosto. Os
criados iam e vinham trazendo refeições, mas a visão de
comida era mais do que conseguia suportar. Os pratos
empilhavam-se na mesa junto à janela, intocados,
estragando, até que os criados os levassem de volta.
Por vezes, seu sono era de chumbo e sem sonhos, e
acordava mais cansada do que estivera quando fechara
os olhos. Mas esses eram os melhores momentos, pois,
quando sonhava, sonhava com o pai. Acordada ou
dormindo, via-o, via os homens de manto dourado
empurrá-lo para baixo, via Sor Ilyn avançar a passos
largos, desembainhando Gelo da bainha que levava às
costas, via o momento... o momento em que... quisera
afastar os olhos, quisera fazê-lo, perdera o apoio das
pernas e caíra de joelhos, mas de algum modo não fora
capaz de virar a cabeça, e todo mundo gritava e berrava,
e o seu príncipe sorrira-lhe, ele sorrira e ela se sentira
segura, mas só por um momento, até dizer aquelas
palavras, e as pernas do pai... era isso que recordava, as
pernas, a maneira como elas se tinham sacudido quando
Sor Ilyn... quando a espada...
Se calhar, também vou morrer, disse a si mesma, e a
ideia não lhe pareceu assim tão terrível. Se se atirasse da
janela, poderia pôr fim ao sofrimento, e nos anos
vindouros os cantores escreveriam canções sobre o seu
pesar. Seu corpo jazeria sobre as pedras, lá embaixo,
quebrado e inocente, envergonhando todos aqueles que a
tinham traído. Sansa chegara a atravessar o quarto e a
abrir as venezianas... mas então a coragem a deixara, e
correra de volta à cama, aos soluços.
As criadas tentavam conversar com ela quando lhe
traziam as refeições, mas nunca lhes deu resposta. Uma
vez, o Grande Meistre Pycelle veio ao quarto com uma
caixa cheia de frascos e garrafas, para perguntar se
estava doente. Pôs a mão em sua testa, obrigou-a a
despir-se e tocou-a por todo o lado enquanto a criada a
segurava. Quando saiu, deu-lhe uma poção de aguamel e
ervas e disse-lhe para beber um gole todas as noites. Ela
a bebeu toda de uma vez e voltou a adormecer.
Sonhou com passos na escada da torre, um agourento
raspar de couro em pedra feito por um homem que subia
lentamente até seu quarto, degrau por degrau. Tudo o
que podia fazer era comprimir-se contra a porta e
escutar, tremendo, enquanto ele se aproximava cada vez
mais. Sabia que era Sor Ilyn Payne vindo buscá-la, com
Gelo na mão, para cortar-lhe a cabeça. Não havia para
onde fugir, não havia esconderijo nenhum, nenhuma
